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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Recortes do Passado #6 ♥


Era Primavera, estava sol e tínhamos acabado de arrumar tudo para irmos embora do local em que nos encontrávamos. Restava-nos então esperar pela boleia e aproveitar os últimos minutos com todas aquelas pessoas que se haviam tornado especiais em tão poucas horas. Estávamos todos sentados no chão, por entre malas, tendas, capas de guitarras, mantas e mantimentos. O Phillip estava uma vez mais de guitarra nas mãos, dedilhando as suas cordas, tocando num qualquer ritmo sem sentido enquanto eu apoiava a minha cabeça nas pernas da Audrey. Enquanto ela me passava a mão pela cara, num gesto tão protetor quanto só ela sabe ser, riamos em uníssono, partilhando as recordações da noite anterior, descobrindo a piada até nas situações mais aborrecidas. Estávamos relaxados e a aproveitar os momentos antes da despedida que nos apartaria uns dos outros.
E foi num desses momentos de risada que o Phillip se decidiu por fim a tocar uma música conhecida de todos. When I Was Your Man, do Bruno Mars. O que se seguiu foi instantâneo e imprevisível. Como é já hábito meu, comecei a cantar a música, acompanhando o som da guitarra e esperando que mais alguém a mim se juntasse. Sem me importar com o que pudessem achar, simplesmente contando que alguém mais conhecesse a música como nós os dois. Mas isso não aconteceu. Pelo contrário, fui incitada a continuar a cantar juntamente com o Phillip, parecendo naquele momento que tudo o resto estava em suspenso. Não, eu não o conhecia antes e não, nunca mais travei conversa com ele, mas o que aconteceu naquele dia, foi algo de surreal. Duas vozes, uma música e uma plateia atenta. Não, eu não sei cantar, nem tão pouco a minha voz é melodiosa, mas trautear as canções que conheço bem é um dos meu hábitos preferidos e, naquele momento, foi completamente diferente. Um daqueles momentos mágicos que se vêem nos filmes. Um daqueles momentos que só quem vive compreende a tamanha cumplicidade subjacente à situação. 
Foi bonito, e sem saber como, eu deixei-me levar pelo ritmo da música, pela melodia da natureza e pela serenidade do meu espírito. Deixei de lado os pudores e os problemas e cantei, pura e simplesmente. 
E esse é um momento que gosto de recordar.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

today is a freedom day


Ontem, uma grande amiga minha venceu a grande batalha da vida dela e eu não podia sentir-me mais contente por saber que finalmente ela está livre das correntes que durante anos e anos seguidos a mantiveram cativa. Finalmente ela pode respirar fundo e sentir-se segura, longe do homem que mais mal lhe fez e eu só tenho pena de não poder dar-lhe um enorme abraço neste momento tão importante da vida dela. Só tenho pena que ela esteja tão longe e eu não possa ir ter com ela para partilhar este momento. Terei de esperar pelo próximo verão para ter a minha americana por cá outra vez e para poder fazer as coisas mais loucas com ela, como só nós sabemos. Por enquanto, contento-me em vê-la de sorriso no rosto através do computador, que encurta a distância entre o país em que ela se encontra e o nosso país. Parece que lhe tiraram um peso insuportável de cima e agora sei que ela está verdadeiramente aliviada por tudo isto ter terminado. Ela é daquelas pessoas que ninguém algum dia suspeitaria pelo que ela passou, tal o sorriso que ela tem sempre no rosto e, no entanto, não sei se eu aguentaria passar por tudo o que ela passou na sua jovem vida. Mas o que tenho a certeza é que ela merece ser feliz e este é o primeiro passo para a liberdade dela e é um passo que eu quero acompanhar, mesmo que à distância. Agora a minha tagarela preferida está finalmente solta e eu sei que ela vai aproveitar esta sensação de libertação ao máximo, como sempre faz com tudo. Tenho saudades dela, mas esta batalha vencida, dá-me alento a mim também. A força dela é contagiante.