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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Recortes do Passado #8 ♥


Abril 2013
"Quando o avião levantou voo, respirei de alívio. Dentro de um par de horas, estaria de novo perto de ti e isso bastava para acalmar o meu pequeno coração. Apesar do cansaço acumulado, das horas dormidas a passo de corrida e do pesar da saudade, não fui capaz de sucumbir ao sono, ficando desperta durante toda a viagem.
Andar de avião foi, desde muito cedo, uma sensação de serenidade imensa e, fazê-lo de volta a casa - desta vez contrariamente ao que me é habitual - preencheu-me de uma dualidade de sentimentos. Saudade e contentamento. Aquela sensação de pesar que sempre me acompanha nos regressos a casa, quando tenho de abandonar os locais que visito, deixou-me naquela noite, sendo substituída pela mais pura das felicidades. Por estar a voltar para ti, por estar a encurtar a distância que separava os nossos corpos, por trazer comigo experiências que deviam ter sido partilhadas contigo.
Inclinei-me até alcançar a minha mochila que se encontrava debaixo do meu banco e tirei de lá a tua camisola. Aquela onde ainda se podia sentir o odor a ti, agora já misturado com o meu aroma, aquela com a qual eu dormira todas as noites, na esperança de que isso te trouxesse aos meus sonhos. Levei-a até ao meu rosto e inspirei, sentindo aquele aroma tão teu, saboreando a doçura das memórias que me assaltavam a mente. 
"Deixa-me adivinhar... É do namorado! Estou certo?" 
Corei. 
"Ah! Essa cara diz tudo! É mesmo dele! Estás tão apaixonada, miúda... Conta-me lá, quem é o sortudo?"
A tua imagem apareceu na minha cabeça imediatamente e senti a minha face ganhar uma cor ainda mais rosada. 
"Não o conheces, mas é uma pessoa muito especial para mim."
"Já deu para reparar!"
Sorri. 
Virei ligeiramente o corpo para a janela e, apoiando a cabeça na camisola, mantive o olhar fixo nas luzes das cidades que sobrevoávamos. Uma infinita teia de pontinhos brilhantes que, na noite cerrada, dava todo o sentido àquele momento. Cerrei os olhos. Estava finalmente pronta para sonhar contigo."

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Recortes do Passado #7 ♥


21 de Setembro de 2012. Mais um dia normal. Estou cansada, mal consigo manter os olhos abertos e a mente desperta, e só eu sei o esforço que faço para escrever estas palavras. Mas tenho de o fazer. Necessito de expulsar esta nostalgia, raiva e tristeza de dentro de mim. Consomem-me e torturam-me e, ainda que não queira perecer, as forças falham-me. Sinto-me fraca e consumida por um sentimento que não sei expressar. 
A minha mente encontra-se confusa e desgastada, e, depois de uma semana exaustiva, sinto-me prestes a desistir. Vagueio perdida entre dois mundos, dividida entre dois dialetos. 

18 de Outubro de 2012. Os dias continuam a passar e vejo a vida passar-me à frente dos olhos como um tornado, rápida e difusa. 
Meti-me numa encruzilhada e temo já estar tão embrenhada nela que, ao escapar, possa sofrer as consequências cruas e danosas dos meus atos. As consequências que seguir o meu coração pode trazer.
Olho ao meu redor e vejo espelhado nos rostos que me são conhecidos, as verdades que as bocas não pronunciam. Pergunto-me se será normal sentir-me tão deslocada por vezes. Pergunto-me se será uniforme por entre as mentes que me rodeiam ou se serei a única a questionar a verdade intrínseca da vida. Da minha existência.
Como já tantas vezes me disseram, não posso alimentar tanto rancor em mim. Era suposto ter certas dúvidas, mas deixá-las para trás em busca de nova aventura. E como eu gostava de me assemelhar aos que me rodeiam, obedecendo a essa regra. Mas não é assim que eu sou, não é assim que ajo e penso. Sempre guardei e sempre guardarei as falhas, os erros e as desilusões no meu coração e na minha mente. Irei sempre lembrar o mal que foi feito e, não raro, mas também não ocorrente, o que de bom foi efetuado. 
Por vezes, chegamos a duvidar e a questionar quem serão aqueles pelos quais valeu a pena lutar. Quem são aqueles que nos irão segurar nas quedas e respeitar nas decisões. Quem estará lá incondicionalmente. 
Se acharmos dentro de nós a resposta "Ninguém", é hora de recomeçar.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Recortes do Passado #6 ♥


Era Primavera, estava sol e tínhamos acabado de arrumar tudo para irmos embora do local em que nos encontrávamos. Restava-nos então esperar pela boleia e aproveitar os últimos minutos com todas aquelas pessoas que se haviam tornado especiais em tão poucas horas. Estávamos todos sentados no chão, por entre malas, tendas, capas de guitarras, mantas e mantimentos. O Phillip estava uma vez mais de guitarra nas mãos, dedilhando as suas cordas, tocando num qualquer ritmo sem sentido enquanto eu apoiava a minha cabeça nas pernas da Audrey. Enquanto ela me passava a mão pela cara, num gesto tão protetor quanto só ela sabe ser, riamos em uníssono, partilhando as recordações da noite anterior, descobrindo a piada até nas situações mais aborrecidas. Estávamos relaxados e a aproveitar os momentos antes da despedida que nos apartaria uns dos outros.
E foi num desses momentos de risada que o Phillip se decidiu por fim a tocar uma música conhecida de todos. When I Was Your Man, do Bruno Mars. O que se seguiu foi instantâneo e imprevisível. Como é já hábito meu, comecei a cantar a música, acompanhando o som da guitarra e esperando que mais alguém a mim se juntasse. Sem me importar com o que pudessem achar, simplesmente contando que alguém mais conhecesse a música como nós os dois. Mas isso não aconteceu. Pelo contrário, fui incitada a continuar a cantar juntamente com o Phillip, parecendo naquele momento que tudo o resto estava em suspenso. Não, eu não o conhecia antes e não, nunca mais travei conversa com ele, mas o que aconteceu naquele dia, foi algo de surreal. Duas vozes, uma música e uma plateia atenta. Não, eu não sei cantar, nem tão pouco a minha voz é melodiosa, mas trautear as canções que conheço bem é um dos meu hábitos preferidos e, naquele momento, foi completamente diferente. Um daqueles momentos mágicos que se vêem nos filmes. Um daqueles momentos que só quem vive compreende a tamanha cumplicidade subjacente à situação. 
Foi bonito, e sem saber como, eu deixei-me levar pelo ritmo da música, pela melodia da natureza e pela serenidade do meu espírito. Deixei de lado os pudores e os problemas e cantei, pura e simplesmente. 
E esse é um momento que gosto de recordar.

domingo, 20 de outubro de 2013

Recortes do Passado #4 ♥



 «"Sei que sempre viste em mim um exemplo a seguir e também nisto quero que assim seja, por isso decidi ser o mais sincero possível contigo.", iniciou. Senti o meu corpo arrefecer e preferi manter o silêncio, aguardando.»

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Recortes do Passado #3 ♥


7 de Junho de 2013 "Hoje entrei de férias (supostamente), apesar de ainda ter dois exames pela frente, o que se traduz em três semanas de estudo. A verdade é que odeio despedidas, com tudo o que se deixa por dizer, por todos os gestos que ficam pelo caminho. Ainda que saiba que irei rever a minha turma pela escola a esclarecer dúvidas e também na realização dos exames, já para não falar no jantar de turma já marcado, abandonar a escola hoje deixou-me um travo amargo a saudade. É agora que tudo muda. É agora que se rompem muitas ligações e se solidificam outras. Hoje foi o último dia em que tive aulas com esta turma. A última vez que olhei à volta e vi todos aqueles 14 rostos na mesma sala, num dia normal. É agora que todos seguimos caminhos diferentes. Uns escolheram uma secundária, outros escolheram a outra e há ainda aqueles que se decidiram por outros caminhos. Há aqueles que traçarão a sua vida nas línguas, e outros na matemática, e ainda outros que optaram pela veia desportiva. O que é certo é que me custa deixá-los a todos. Não, nunca fomos a turma perfeita, nunca fomos um modelo de união, sempre houve pessoas com quem uns se davam melhores do que outros. Não, não éramos os mais bem comportados, ma também não eramos os maiores terroristas da sala de aula. Havia um certo equilíbrio. Havia os momentos de risada sem fim e os momentos de absorção e interesse total. Havia as borrachas voadoras, as mensagens secretas e as piadas secas. Mas acima de tudo, havia confiança, partilha, conhecimento. Estávamos quase todos juntos desde a primária e isso tem muito que se lhe diga. Conhecíamo-nos uns aos outros, vimo-nos crescer em conjunto, presenteámos os dramas, as parvoíces e as mudanças uns dos outros e acolhemos sempre quem vinha de fora. Não fomos a turma modelo, mas fomos uma turma que eu não trocava por nada. E é por isso que as saudades apertam tanto, por saber que nunca terei uma turma como esta. Fomos o 6ºA, o 7ºG, o 8ºF e o 9ºE. Fomos uma família que hoje se começa a separar. Só espero que nada disto seja definitivo. Que não haja distância que nos impeça de nos cruzarmos na rua e de partirmos a correr para um abraço. Que não haja distância que nos impeça de nos encontrarmos no futuro para saber todas as novidades. Que não haja distância que nos impeça de mandar uma mensagem a perguntar se está tudo bem. Que não haja distância que nos impeça de nos contactarmos. Não quero que o que no passado se passou se repita. Quero mante-los a todos. Mesmo aqueles com quem nunca me identifiquei, mas com quem de certo tenho boas memórias. Vamos por caminhos diferentes, mas temos um passado comum. É isso que deixa saudade."

Não sei até que ponto tudo isto se mantém. Afinal os caminhos apartaram-se mesmo e as ligações estão-se a romper... Mas as saudades estão lá.