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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

uma tela nua


Com todas as cores prostradas em cima da mesa, ordenadas numa gradação que lhe era tão familiar, o seu olhar azeitona procurava incessantemente a tonalidade perfeita para delinear a sua alma. Os seus olhos pousaram no azul celeste e imediatamente se apercebeu que aquela não seria a cor que escolheria para decorar o branco imaculado da tela que escolhera. Passou ao magenta e, ainda que lhe lembrasse o sangue que lhe jorrada das falhas que abrira nos próprios pulsos, negou-lhe a preferência: não era cor digna de uma alma tão sádica e temerosa. Ao amarelo, virou a cara sem pensar uma segunda vez e ao laranja fez apenas um trejeito desvalorizador, pondo-o de parte à partida. Amante da natureza na sua forma mais pura, pegou no verde esmeralda e, após hesitar por um segundo, atirou-o para longe, livrando-se de tal opção. O rosa era tom que lhe lembrava a sua infância roubada e, esforçando-se por não se demorar nestes pensamentos, desviou o olhar dele também, ignorando a sua existência. Nos entretantos, a tela permanecia de um branco puro, desejando ardentemente ser preenchida por um qualquer tom que lhe roubasse a monotonia de vazia ser. Na sua decidida indecisão, confrontou o castanho que lhe atraía a atenção, mas rápido se apercebeu que lhe faltava a escuridão que a consumia e destruía. Mas afinal, de que cor era a sua alma? Movendo o seu corpo desnudado e frágil de um lado para o outro, na vã esperança de assim desenhar na sua mente a cor que lhe assentaria que nem uma luva, deparou-se consigo mesma parada em frente ao espelho decrépito que lhe pendia no meio do quarto. Fitou o seu corpo marcado de incertezas e cicatrizes e olhou-se depois fixamente nos olhos. Não diziam eles que os olhos são o espelho da alma? Aproximou-se um pouco mais e, sem desprender os olhos do seu reflexo, perscrutou no fundo de si. Despiu cada camada da sua tão intrincada personalidade e espreitou a sua alma condenada. Seriam aquilo lágrimas nos seus olhos? Afinal a sua alma era tão negra quanto o seu olhar. Uma alma assombrada, perdida nas infindáveis questões de um ser que não sabe ser. Mais uma tela que seria ponteada pela escuridão de uma noite sem estrelas.

sábado, 12 de outubro de 2013

death.


Desejares pôr termo à tua vida e fazê-lo, de facto, são coisas muito distintas uma da outra. Pensar e agir não é bem a mesma coisa. Ainda assim, se pensarmos bem, quando chegamos ao ponto de desejar a nossa própria morte, é porque algo em nós já está morto. Quando uma faca se torna aliciante e um precipício nos atrai de uma maneira inexplicável, é porque algo se quebrou para não mais se recompor. Não se trata apenas de não estar de bem com a vida, mas de já não saber o que é viver. É já não conhecer outra emoção senão dor. Já nem sequer é ter medo, pois o medo mais imperativo é a morte, e esse saiu derrotado. Quando morremos por dentro, transformamo-nos num corpo cadavérico e vivemos na esperança que a morte nos leve sem termos de ser nós a bater-lhe à porta. E quando a nossa alma se torna tão negra que já nada tem a ver connosco, sobrevivemos sem saber o porquê.
Eu sei o porquê de ainda não ter terminado tudo. Eu sei o porquê de ainda resistir aos objetos contundentes, o porquê de ainda não ter sucumbido à atração do precipício. Eu sei o porquê de ainda não ter deixado tudo para trás. Não é por temer a dor, ou por fugir da morte. Não é por ver ainda alguma coisa de bom neste mundo empedernido de más intenções. É simplesmente por reconhecer a dor que  tal ato infligiria à única pessoa com quem me importo. Simplesmente por saber que mataria outra pessoa por dentro e por não desejar isso a ninguém. E se isso é motivo suficiente por fazer as lágrimas correr ao invés do sangue? Por enquanto é. Por enquanto é a única coisa que me resta e que eu não quero destruir ainda mais, mesmo vendo os benefícios que isso traria. 
Já fiz estragos suficientes e reconhecer isso é um dos chamamentos para o outro lado. Lado esse que ouço clamar o meu nome incessantemente, envolvendo-me, chamando-me. E eu quero ir. Quero desprender-me de tudo o que ainda tenho e responder. Mas não quero provocar mais dor que aquela que já provoquei a quem nada disso merecia. E é por isso que aguento. Sobrevivendo cada dia, morrendo um pouco diariamente. Na vã esperança que o meu destino tenha sido desenhado curto.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

sunset


Hoje ao sentar-me a olhar o pôr-do-sol, deixei-me inundar por pensamentos dispersos enquanto lágrimas corriam pela minha face. Não que a dor se tenha acentuado hoje. Não que algo me tenha derrubado. Simplesmente deixei-me levar pela revolta que ocupa o meu âmago e quando dei conta, toda a minha face estava já molhada. Ao ver o céu azul misturar-se com o laranja do sol, apercebi-me do quanto a minha vida se alterou nos últimos tempos e do quanto essas mesma alterações mexeram com o mais fundo de mim. Não choro por estar magoada, nem por não saber que rumo tomar. Não choro pelo amanhã que não conheço. Choro simplesmente por olhar para o passado e ver os rumos que este me obrigou a tomar e aonde eles me trouxeram. Por me aperceber da dor que marcou o meu caminho e por saber que a mesma nunca cessará. Choro por melancolia, angústia  e pavor. Choro por reconhecer os contornos que a minha vida criou e por saber que hoje teria feito tanto de diferente.  Quando o dia se despede e com uma aragem fresca vemos a noite regressar, tudo aquilo de que preciso é de respirar fundo e de me lembrar que, traga o futuro o que trouxer, eu sobreviverei, apenas mais um dia.

sábado, 5 de outubro de 2013

nightmare


Dói aperceber-me que tenho e terei, a partir de agora, de passar por um inferno cada vez que quiser sair de casa, para depois ver e ouvir coisas que me magoam, que me irritam e que me deitam abaixo. Dói sentir o meu corpo a tremer e a minha confiança a diminuir acentuadamente por ouvir palavras que me ferem. Não quero ser paranóica, mas sinto que está tudo a regredir, a voltar ao início. Sinto que está tudo a acontecer de novo, a repetir-se, e que desta vez eu posso não aguentar. Eu queria isto, mas de modo diferente. E agora tornou-se simplesmente um pesadelo do qual duvido vir a acordar. Resta-me continuar a aguentar. A cumprir aquelas que são agora as minhas responsabilidades e a envergar uma máscara que pusera de parte há muito. Resta-me continuar a dar o meu melhor, mesmo sabendo que nunca será suficiente. Mesmo sabendo que nunca serei capaz de fazer tudo bem. Mesmo sabendo que algumas palavras continuarão a diminuir-me. Resta-me aprender a viver neste pesadelo.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Não faças o que eu faço.


Seria tudo tão mais fácil se eu soubesse seguir os meus próprios conselhos. Se eu em vez de dizer "Princesa tu és linda tal como és", não odiasse o meu corpo. Se eu em vez de dizer "Tu és forte e és capaz de superar tudo", o conseguisse de facto, ser. Se eu em vez de de dizer aos outros que podem contar comigo para desabafarem, fosse capaz de me abrir sem reservas a alguém. Seria tudo tão mais simples se eu conseguisse iluminar o meu próprio dia. Se eu fosse capaz de pôr um sorriso inabalável na minha face, em vez de apenas o dizer aos outros para o fazerem. Seria ótimo que eu não aconselhasse apenas os outros a amarem-se e começasse, de facto, a gostar de mim própria. Seria fantástico... mas eu não consigo. Dou imensos conselhos que não sei seguir e há de ser sempre assim. Faz o que eu digo, nunca faças o que eu faço.